CARGA PRECIOSA
Sidney Fernandes
Eu estava levando em meu carro um grande orador para proferir palestra em um centro espírita localizado em populoso bairro do Rio de Janeiro.
Meu GPS indicava caminho reto por alguns quilômetros, seguido de uma conversão à direita; logo estaríamos no local.
Deu-me na veneta (como diria meu avô italiano), isto é, tive um impulso súbito, uma vontade inesperada e inexplicável de mudar o percurso por conta própria. O navegador imediatamente recalculou a rota e eu segui por um caminho diferente do adrede planejado.
O grande orador estranhou e me perguntou, em tom de crítica:
— Ué, por que você mudou de rota?
— Sei lá — respondi —, resolvi de repente, nem sei exatamente por quê.
Demoramos um pouco mais para chegar, após o desvio de rota, mas tudo correu bem e logo estávamos lá. À porta, além do dirigente, havia um grupo de frequentadores que, logo notamos, estavam aflitos por nossa causa.
— Está tudo bem com vocês? Tiveram algum problema? Algum contratempo? — perguntou, preocupado, o anfitrião.
Descendo do carro, sorridente, o amigo orador disse em tom de blague:
— Por que não haveria de estar?
Pacientemente, agora mais calmo, o dirigente da casa espírita explicou que todos estavam preocupados, porque, na rota habitual para o centro, estava ocorrendo um confronto entre policiais e traficantes.
— Nesses casos — explicou — é muito comum que sobrem balas perdidas, que poderiam atingir vocês!
Compenetrando-se da seriedade da situação, o grande orador olhou para mim com um olhar significativo e logo compreendemos que havíamos sido conduzidos pela espiritualidade por um caminho mais seguro.
Se eu estivesse só, é pouco provável que avisos da espiritualidade chegassem ao meu conhecimento. No entanto, a carga valiosa — o abnegado conferencista, escritor e líder espírita que eu conduzia — contava com formidável cortejo de entidades protetoras, que nos advertiram a tempo de evitarmos perigoso confronto.
As advertências de nossos Espíritos protetores têm por objeto único a conduta moral ou também a conduta a ter nas coisas da vida particular?
— Tudo; eles procuram fazer-vos viver o melhor possível. Mas, frequentemente fechais os ouvidos às boas advertências e sois infelizes por vossa causa. (Questão 524, de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec)








