UM MÉDICO ALÉM DA MORTE
Sidney Fernandes
Arnaldo fora médico na Terra. Ao morrer, esperava encontrar um local beatífico que as religiões da Terra lhe haviam prometido. A situação que encontrou, no entanto, foi diametralmente diversa.
Nunca foi materialista, pois não admitia a possibilidade do nada, após ter vivenciado tantas experiências e se afeiçoado a tantas pessoas e ter adquirido, com seus estudos, pálida ideia do que teria ainda a aprender, na Terra e além dela, diante da grandiosidade dos elementos naturais e da imensidão do universo.
Entendia, porém, que tudo se resumiria, após a morte, a um passe de mágica que o conduziria ao paraíso ou às regiões tenebrosas descritas por Dante Alighieri em sua famosa Divina Comédia.
Não lhe fora informado que ele chegaria ao limiar da eternidade tão somente com a bagagem que houvera semeado, que ninguém usufruirá, no plano espiritual, descanso a que não tenha feito jus.
Em dado momento, Arnaldo lembrou-se de texto que certa vez ouvira em um sermão dominical, atribuído ao Evangelista Lucas, quando Jesus, interpelado pelos fariseus a respeito da vinda do Reino de Deus, proferiu as sábias palavras:
— O reino de Deus não vem com aparência exterior.
Cedo descobriu que simplesmente mudara de residência e levara, consigo, indisposições, doenças, bem como os processos de investigação e de cura. Encontrou enfermos e médicos em quantidade superior à da Terra e um aparelho fisiológico muito mais complexo do que a maravilhosa organização do corpo físico, que sempre o encantara em seus estudos da ciência médica.
A religião havia lhe ensinado que a alma surge no momento da concepção humana e, com a morte, volta ao seio divino para o julgamento que determina o seu caminho eterno, com eventual trânsito por regiões purgatoriais. Embora logo tivesse presenciado flagelações e sofrimentos muito mais intensos que os idealizados pela inquisição, concluiu que nem a ciência nem a religião o havia preparado adequadamente para o enfrentamento da morte.
Arnaldo sentia-se como um relutante imigrante, despejado em país desconhecido e assustador, sem passaporte, sem amigos e sem dinheiro. Que pedaço de mundo era aquele que nem Dante se lembrou de descrever, com gente perambulando, gritando, resmungando, chorando e proferindo histriônicas gargalhadas?
A quem recorrer?
Ao tomar consciência de sua nova realidade, conseguiu elevar seu nível vibratório e colocar-se em contato com seu protetor espiritual. Seguindo suas instruções, mergulhou no trabalho de atendimento aos doentes do além. E foi ali, ao retomar sua abençoada vocação para a medicina, que Arnaldo iniciou sua recuperação.
Deus jamais desampara qualquer de suas ovelhas, ainda que momentaneamente desgarrada do bom caminho. O abençoado trabalho reconduziu Arnaldo aos campos do conhecimento e da sublimação de seus sentimentos, dos quais jamais deveria ter se afastado.