ANTES DO ÚLTIMO SUSPIRO
Sidney Fernandes
Os corredores silenciosos do hospital, impregnados de dor e esperança, testemunhavam uma cena que se repetia diariamente: voluntários visitavam os leitos com vozes suaves, olhares compassivos e gestos simples, trazendo conforto aos que aguardavam o desenlace da vida. Entre eles estava Amanda, jovem enfermeira que se destacava não apenas pela técnica, mas pelo raro dom de ouvir com o coração.
Amanda cuidava de Augusto, homem de idade avançada, com câncer agressivo que lhe tomava as forças pouco a pouco. Era silencioso, carregava arrependimentos e se amargurava pelo distanciamento da família. Seu semblante fechado, endurecido por mágoas antigas, dificultava qualquer aproximação. Mas Amanda não desistia, mesmo quando ele parecia indiferente.
Com delicadeza, insistia em pequenos diálogos. Cuidava de suas feridas físicas com mãos firmes, e das emocionais com palavras pacientes e acolhedoras. Aos poucos, conquistou o velho homem, que passou a aguardar com ansiedade seus turnos, descobrindo na jovem a presença afetuosa que já não encontrava entre os parentes.
Certa manhã, Amanda soube que Augusto estava em seus instantes finais. O coração apertado, correu ao quarto e segurou-lhe a mão com ternura. Muito fraco, ele murmurou:
“Você é minha filha de alma. Nunca tive coragem de pedir perdão aos que magoei, mas com você aprendi a acreditar que posso partir em paz e, quem sabe, um dia reparar meus erros.”
Foram suas últimas palavras. Morreu sereno, com os olhos voltados para Amanda, que chorava silenciosamente. Ela sabia que, mesmo sem a presença física dos familiares, ele partira leve, graças ao amor recebido — talvez pela primeira vez em muitos anos.
Sem perceber, Amanda tornara-se instrumento da misericórdia divina. Sua presença constante, sua escuta e seu carinho foram o bálsamo que suavizou os momentos derradeiros daquele homem solitário — e lhe devolveu o direito de se sentir amado nos minutos finais.
Quantos como Amanda existem, sem holofotes, cumprindo tarefas anônimas e essenciais? São seres discretos que vivem a compaixão como estilo de vida. Mesmo diante das sombras, oferecem luz e esperança, devolvendo dignidade aos que estão prestes a se despedir.
O amor genuíno é força transformadora. Amolece mágoas, resgata corações e constrói pontes onde antes havia abismos. Quando nos deixamos guiar por essa força, mesmo com poucos recursos materiais, nossas mãos se enchem de poder curativo. Porque o que cura, consola e redime não é o muito que se faz — mas o quanto se ama. E, às vezes, esse amor basta para mudar um destino inteiro, mesmo que nos últimos minutos.








