UM PEDAÇO DE BOLO
Sidney Fernandes
A tristeza pode ser uma porta escancarada para o desespero. Foi assim com Eunice, uma senhora bondosa e dedicada, que, após a morte do marido, mergulhou em profunda melancolia. O silêncio do apartamento, repleto de lembranças, tornou-se um grito de ausência.
Na mesma época, a vizinha Ivanilde também ficara viúva. Mas, amparada pela filha Cristina, enfrentava a dor com mais firmeza. Cristina a estimulava com telefonemas, visitas e conversas sobre a continuidade da vida. Não permitia que a mãe se deixasse vencer pelo luto.
Certa tarde, Cristina decidiu preparar um bolo simples, como quem busca preencher o tempo com carinho. Ligou para a mãe:
— Mãe, acabei de fazer um bolo. Estou indo aí te levar um pedaço.
Ivanilde entendeu o convite velado e respondeu:
— Traga um pedaço grande. E vamos visitar a Eunice. Ela está muito abatida.
Cristina não sabia que, naquele momento, Eunice estava à beira do abismo — literalmente. Debruçada na sacada de seu apartamento, cogitava dar fim à vida, convencida de que reencontraria o marido no além.
Ao chegar ao prédio, Cristina viu Eunice de longe, agarrada à grade da varanda. Subiu rapidamente. Sem alarde, chamou a mãe para acompanhá-la. Bateram à porta com serenidade. Eunice, surpresa, as recebeu. O chá da tarde, com bolo recém-assado, foi mais que uma visita — foi um salvamento silencioso.
A partir desse dia, Ivanilde passou a incluir Eunice em suas atividades. Levou-a ao templo religioso, aos trabalhos de costura beneficente, a encontros com outras viúvas que buscavam consolo umas nas outras. Pouco a pouco, a dor deu lugar à fé e à amizade.
Não houve fenômenos espetaculares, mas sim o milagre cotidiano do amor em ação. Cristina, com seu gesto singelo, e Ivanilde, com sua dedicação constante, tornaram-se instrumentos da misericórdia.
Eunice, por sua história de bondade, teve direito ao amparo que chega como um abraço vindo do Céu.
Quantas vezes, num gesto simples, salvamos alguém?
Quantas vezes somos chamados, sem saber, a participar de um plano divino?
Naquela tarde, entre o cheiro do bolo e o calor do chá, a vida venceu a morte — e o amor, mais uma vez, cumpriu seu papel.








